Reviravolta

Eu resolvi dar mais atenção ao que disse. Você disse que eu devia quando me sentir mal transformar esse sentimento em algo reverso escrito ou através de desenhos. Em desenhos as energias são outras mas a escrita sempre teve minhas profundezas. Olhei tudo que escrevo em cadernos, folhas soltas e na internet e vi boa parte com bastante carga pesada, bem carregado de energia mas não era uma energia que eu queria consumir. Era uma energia que eu queria tirar de mim, esquecer, mas que, de alguma forma, dava a sensação do alívio mesmo que ainda existisse forte ali. Me perguntei se estava realmente colocando tudo pra fora ou plantando sementinhas em cada canto. As pessoas se identificam por que? Por que o amor pra elas um dia doeu? Ou está doendo agora? Se sim, então eu devo ter feito tudo errado.

Eu venho dizer o óbvio, que precisa ser dito mas eu mesma, nunca disse: o amor não dói como muitos poetas romantizam e, se dói, ou faz doer, não é amor. As pessoas vão vir atrás de textos assim para ler sempre e guardar com carinho? Não, nem mesmo eu queria aqueles sentimentos em mim. Queria expulsa-los todas as vezes que escrevia e nunca mais sentir. Certamente não é então o tipo de energia que eu quero consumir ou espalhar. Ouvi com carinho o que disse e todos os dias reflito um pouco mais. Eu preciso mudar o conceito disso tudo, o que eu sinto, quero sentir e o que quero somente tirar de mim.
A terapia não será mais aberta. Nem tudo é necessário. E se eu olhar bem, tudo foi desnecessário – deixo livre a interpretação da frase pela complexidade da explicação, porém sepah todas as respostas estariam certas.

Podemos então excluir e recomeçar. Seria fácil mas não seria poético, não seria eu. Sem falhas, caos, recomeços, conflitos e alguns acertos, não seria eu. Não teria nós. Não teria existido nada – e em alguns casos isso seria incrível pra mim. Nada faria sentido. Estar aqui agora seria talvez próximo do impossível. Gosto de saber que valeu a pena apesar dos obstáculos, ter história pra contar, olhar tudo que passei e lembrar que ainda pode haver outras reviravoltas. Isso torna as coisas mais reais e aceitáveis – e por que não esperançosas?. Então deixa como está, faz de conta que começamos um livro novo, é réveillon e uma nova história começa.

O que é perdão pra você?

Parece fácil pedir desculpas quando não foi você quem carregou a dor maior parte do tempo. Eu não faço ideia se doeu em você o mesmo tanto que doeu e dói vez ou outra ainda em mim. Eu nem me importo. Não me importo porque a minha dor virou só minha por todos esses anos. Você nunca se importou. Nem durante nem depois. Foi difícil me relacionar depois de você. Foi difícil acreditar em alguém, foi difícil dormir sozinha e acompanhada, foi difícil pensar no amor de novo. Foi mais difícil ainda esquecer a dor, tentar deixar criar casca no machucado que nunca cicatriza. Eu tirei de perto tudo que me lembrava você. Me afastei de pessoas que eu gostava porque, de alguma forma, ali tinha um pouco de você. Deixei para trás sonhos que eram nossos, sonhos que eram meus e que você apoiou, sonhos que você sonhou pra mim e eu quis realizar. Hoje eu penso, ainda bem que não fiz aquela tatugem para minha avó, até a Inicial do nome dela lembraria você. Logo ela, tão pura e que me amou tanto. Pessoas perguntariam se foi pensando em você, como eu ia explicar isso? Quando eu disse que acabou, eu repeti várias vezes antes pra mim mesma, por dias, semanas, talvez meses. Eu te amei bastante. Bem mais do que eu achava que amava. Até que eu entendesse o quanto estar sem você era melhor pra mim e assim percebesse o tanto de mim que você apagou. Eu tinha mudado. Eu tinha topado estar do seu lado, eu tinha acreditado, eu passei um dobrado do seu lado. Você não se importou. Eu tinha acreditado em nós. Acreditado em você. Acreditado que daria certo. A gente sempre acredita né? E normalmente não dá. O problema foi que já começou errado, você nem me amava. Não era mesmo pra dar certo, talvez a culpa tenha sido só minha em continuar regando uma planta que não ia vingar. Aquela terra já estava podre. E não era culpa minha. Eu achei que eu podia te amar e curar suas feridas. Te pedi pra confiar. Eu errei desde aí. Faltou você cumprir o que me dizia depois do sexo ou antes, entre declarações com Chico Buarque, músicas prontas no violão. Você dizia me amar. Talvez amasse mesmo. Mas não muito. Porque nunca foi suficiente pra não me enganar. Você mentiu, brincou, me usou. Tirou sangue de mim, quase me matou. Mas matou. Matou por dentro. Secou tudo até a raiz. Não tinha água que revivesse, não tinha promessa que cumprisse, não tinha andar sem medo. Eu tive medo de você. Eu tenho medo você. Eu tenho pânico das lembranças. Eu tenho calafrios por passar por alguém que te conhece, fotografias, alguém que haja como você. Não tem mais nada de você ao alcance. Não teve por anos e mesmo assim sua memória vem em forma de um tom mais alto de voz, uma agressão física a alguém, um puxão forte no meu braço, quando dizem que vão pegar meu celular – e pegam -, um olhar arregalado brilhando ódio, quando corto minha mão, quando ouço as declarações mais bonitas e penso se é verdade ou quando me encurralam numa parede me ameaçando. Vez ou outra você vem numa mensagem suspeita de mulher, um nome diferente de contato salvo que me desperta desconfiança ou depois de uma puta crise de ansiedade e muito choro por medo de estar sendo enganada mais uma vez e sofrer tudo que eu tanto luto para esquecer e superar. Não sei se existe superação só com perdão. Não sei se contar todas as minhas dores te torna melhor por me ouvir. Não vejo como o mais correto você querer ouvir tudo depois de anos me silenciando. Pra se perdoar, se descobrir, se consertar? Você quer me usar de novo. Isso faria reviver tudo ruim em mim. Eu sequer imagino quanto poderia me fazer mal e se eu suportaria. E o pós? O pós é você dormir tranquila com seu perdão embaixo do braço serelepe por aí, vivendo sua vida e esquecendo o rombo na minha. Então não, não superei mesmo, nem sei quando conseguirei. Todos os dias eu supero um pouco. Todos os dias quanto mais distante de você, eu me sinto melhor. Doloroso pra você. Mais saudável pra mim. Talvez não supere tudo, já que virou trauma. Não sei como faria para superar tudo isso sem doer tudo de novo. Desde então eu preciso de um ajuda profissional. Não da sua. Não de você. Parece mais confortável deixar tudo pra trás. Fingir que esqueci até, quem sabe, esquecer mesmo. Não sei se vou te perdoar ou se a paz que tenho longe de você é o perdão. Mesmo de forma muito cruel, você me abriu os olhos. Para o mal. Para obsessão, mentira, psicopatia, crise de ansiedade, síndrome do pânico, insônia, violência doméstica, abuso psicológico, possessão, chantagem, suicídio… Eu já tinha uma noção do que era um relacionamento tóxico antes mas depois de você, “os outros são os outros e só”. Nunca vou poder dizer que não marcou minha vida. Só não posso agradecer por tanto. Sinto muito, e sinto mesmo. Da minha dor cuido eu. Quietinha. Não quero você me procurando mais. Siga em paz.